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Restrições, retorno e ressentimento

Coluna Farol - 04 de Agosto de 2020


Tempos de crise escancaram divisões latentes entre grupos de pessoas e acabam criando novas também. Talvez hoje em dia a divisão mais evidente seja entre os que seguem a quarentena e os que não seguem - no Brasil, é comum ver gente nas ruas andando despreocupadamente, sem máscaras. E, apesar do número de casos novos continuar alto, comenta-se em toda parte que devemos considerar se as regras de isolamento deveriam ser flexibilizadas, porque já ficamos tempo demais presos em casa e o comércio já passou tempo demais de portas fechadas.

As pessoas que até então fizeram tudo de acordo com as recomendações de saúde pública, saindo apenas para o que fosse absolutamente essencial - e ainda assim de máscara -, podem ter que lidar com pensamentos conflituosos. Foram impostas restrições que foram seguidas por uns e não por outros, e agora fala-se de um retorno ao modo como as coisas eram, sem tantas limitações. Não houve qualquer benefício para quem obedeceu às regras, nem punição para quem as descumpriu; pelo contrário, quem fez o que quis ainda aproveitou mais. Como, além disso, as consequências negativas provocadas pelas ações dos infratores terão que ser divididas e arcadas por todos, pode surgir a ideia, na mente de quem cumpriu o isolamento, de que valeria mais a pena ter ignorado as restrições e aproveitado a vida lá fora - e não ajuda a amenizar esse sentimento o fato de que estamos cansados de ficar em casa e desesperados para sair. Levando tudo isso em conta, quem se isolou devidamente pode experimentar um sentimento complexo a que se costuma chamar ressentimento.

Realmente, é difícil não sentir ressentimento vendo as notícias de festas no meio da pandemia, ou vendo quem anda à vontade sem se preocupar, saindo por motivos supérfluos como ir à praia. O pensamento de que os esforços para combater a pandemia não obtiveram tanto sucesso - que a situação de isolamento, portanto, terá que se estender por mais tempo - e que isso é culpa dos outros, que continuaram saindo como se tudo estivesse normal, pode ser correto. Entretanto, não é produtivo, pois perde a visão do todo. Não é uma questão de primeiro achar de quem é a culpa, depois tudo estará resolvido e “já que estamos certos podemos fazer o que quisermos como compensação”. Esse modo de pensar pode nos fazer sentir bem. Porém, por si só, não se traduz em ações que nos ajudem a superar as dificuldades.

Isso se complica mais ainda porque quem não seguiu as recomendações de isolamento muitas vezes nem mesmo acredita na gravidade da situação. Para tratar desse assunto necessitamos comentar sobre o efeito da mídia na vida cotidiana, das fake news que negam pesquisas científicas e propagam o anticientificismo. Precisamos lembrar que embora humanos sejam capazes de agir de forma racional, grande parte de nossos comportamentos e crenças são irracionais, constituindo-se não em reflexões e ajustes conscientes, mas sim em reações ao ambiente moldadas pelas nossa experiência prévia.

Nossos sentidos nos informam sobre o mundo e a partir disso criamos novas crenças e percepções, que por sua vez influenciam o modo como os dados captados pelos sentidos serão interpretados no futuro. Como as informações que percebemos do ambiente são em quantidade bastante elevada e, portanto, não conseguiríamos processar todas elas, nosso cérebro possui alguns atalhos, regras utilizadas para interpretar situações que, ainda que nem sempre cumpram seu papel, possuem suficiente eficácia na prática para continuarem sendo usadas. Um desses atalhos para a tomada de decisões são as emoções.

Nossas emoções evoluíram por milhões de anos em outras condições e, embora os ambientes sempre mudem de acordo com o contexto histórico, apenas muito recentemente, há menos de 150 anos, com a chegada da mídia de massa - e principalmente tecnologias visuais - foi que o contato social se desvinculou da ideia de proximidade física e foram transpostas limitações em relação ao acesso e reprodutibilidade de performances de comportamento e expressões emocionais. Além disso, essas mídias também podem condicionar, não apenas pelo seu conteúdo, como também por sua estrutura, os padrões do nosso próprio comportamento - um exemplo comum é o de aplicativos feitos para serem “viciantes”.

Nós não costumamos policiar os conteúdos de mídia que consumimos - nem devotar tanta atenção aos padrões de comportamento que a estrutura dessas mídias incentiva - como prestamos atenção aos alimentos que consumimos e os padrões alimentares que exibimos, embora a mídia atue sobre nossos sentidos e, portanto, sobre nossa percepção do mundo. A mídia digital e a propaganda criam experiências sensoriais e modelos de comportamento que nos influenciam a todo momento, nos moldando em relação a como nos sentiremos ou agiremos nessa ou naquela situação, e influenciando como perceberemos novas experiências - quem já observou uma criança pequena pode confirmar que entre os principais modos pelos quais as pessoas aprendem estão a imitação, exposição e habituação. Sob essa perspectiva, não é exagero dizer que os que não estão seguindo a quarentena porque não acreditam na ameaça do vírus vivem em uma realidade sensorial diferente dos que estão, pois não enxergam a situação da mesma forma e possuem crenças radicalmente diferentes sobre ela. E se considerarmos que essas pessoas não estão tão adequadas à realidade e gravidade da situação, racionalmente não temos porque ter inveja ou ressentimento delas, mesmo elas tendo aproveitado e saído durante a quarentena e nós não.

Como escreveu o filósofo e lógico Bertrand Russell, não ficamos bravos com alguém que afirma que dois mais dois é cinco; é mais provável sentirmos pena, pois costumamos ficar bravos apenas em situações que não temos certeza da resposta correta. Poderíamos acrescentar também que não faz sentido ficarmos bravos com quem age de certa forma em razão de uma percepção inadequada da realidade, a não ser que levemos a questão para o lado pessoal, como com o ressentimento. As emoções nos cegam e em vez de buscar a verdade da situação podemos transformar isso numa disputa em que a única coisa em jogo é ganhar.

Ainda que se considere que pode haver um questionamento em relação a quem está certo, já que grande parte do conhecimento que a maioria de nós tem da pandemia chega de forma indireta - afinal, nem todos somos biólogos e epidemiologistas -, existem mecanismos regulatórios que deveriam ser seguidos para possuirmos parâmetros em que todos possam concordar se quisermos ter uma população bem informada, como a autoridade do consenso acadêmico, dos especialistas no assunto, a crença (ainda que possa ser crítica em relação à objetividade em alguns casos) nos métodos da ciência e em fontes confiáveis. Todos são métodos que os negacionistas da pandemia não seguem.

O domínio das respostas que teremos às nossas emoções é comumente considerado como uma das característica da maturidade e envolve observarmos como nos colocamos diante das situações. Por exemplo, vamos supor que na hora do intervalo uma professora proíba as crianças de uma série mais inicial de brincarem na caixinha de areia, pois é um brinquedo adequado apenas para as mais velhas - as mais novas podem acabar ingerindo areia. Um grupo dos pequenos desobedece e brinca enquanto outro, que queria ter brincado, apenas olha. A professora, ao fim do intervalo, pune a sala inteira, deixando todos de castigo por dois minutos para cada criança que brincou na caixa de areia.

No dia seguinte, sabendo que vão haver consequências negativas de qualquer forma, porque alguém vai desobedecer, as crianças que antes tinham passado vontade juntam-se aos colegas e brincam na caixa de areia também. Um adulto que observasse a situação poderia concordar com a professora no que diz respeito à caixa de areia ser um risco para crianças daquele tamanho, mas elas não registram o motivo por trás da proibição, a relação de causa e efeito que não apenas faz com que as consequências possam ser piores no futuro, com o castigo, como também no que diz respeito ainda aos riscos imediatos de ingerirem areia.

Para Kohlberg, psicólogo que estudou o desenvolvimento humano, a moralidade é absorvida e internalizada ao longo de seis estágios. Na primeira fase, as pessoas levam em consideração apenas as consequências de suas ações, ou seja, se são ou não castigadas. No segundo estágio, agem de acordo com seus interesses pessoais, só se importando com os dos outros se isso trouxer algum benefício para si. O terceiro é marcado pela vontade de conseguir aprovação, e no quarto as regras são seguidas simplesmente porque são regras e devem ser obedecidas. As pessoas no quinto estágio percebem as regras morais como acordos sociais passíveis de serem negociados e, no sexto, o que guiaria as ações seriam princípios éticos universais.

Aplicadas à situação da caixa de areia, as crianças parecem estar entre o primeiro e segundo estágio de moralidade - ou nem mesmo no primeiro; algumas não parecem seguir uma moral clara, apenas indo brincar na caixa de areia; outras parecem somente se importar com o interesse pessoal; há ainda aquelas que, vendo que não havia punições específicas para quem brincasse, passaram a brincar também. O que importa não são os motivos que levam a existir ou não regras, e sim a sensação de que não há nenhuma autoridade que faça valer essas regras, ou a de que, como as consequências negativas são inevitáveis, a moralidade não importa.

Crianças podem ficar ressentidas em relação a outras crianças - agora, se você é um adulto e tanto você como uma criança são “proibidos” de comer um bolo do aniversário de um parente que está para chegar, se a criança acabar comendo, você não ficaria com ressentimento dela, embora também estivesse com muita vontade de comer. Isso acontece porque não se vê como igual e entende que a criança possui uma visão de mundo e moralidade diferentes das de um adulto, menos maduras e desenvolvidas, com menos controle dos impulsos e outra percepção da realidade, menos ajustada, nesse caso, às normas sociais. Você até pode ficar irritado ou chateado, não ressentido.

Uma coisa é ressentir-se porque nos fizeram mal e não podemos tomar nenhuma ação quanto a isso, outra é quando não nos fizeram mal diretamente (como no caso da pandemia: foi agravada uma situação negativa pois pelo não cumprimento das regras a quarentena pode se estender mais, porém esse não parece ser o principal motivo pelo qual as pessoas estão ressentidas. É mais provável que o motivo do ressentimento se deva ao fato de que quem furou a quarentena se divertiu, enquanto os que fizeram tudo certo, não, e agora os dois grupos pagarão o preço - uma espécie de parábola do filho pródigo na visão do filho que ficou em casa). O excesso de aproveitamento do outro cria uma ofensa à minha privação, deslegitimando-a, e chegamos em um sentimento de injustiça, em que há o questionamento: “do que valeram meu autocontrole e sacrifício?”.

Voltando à ideia de maturidade, ela também envolve a capacidade de não cedermos a qualquer impulso, não satisfazendo apenas nossos desejos imediatos, mas sim sabendo quando e em que situações seguir ou não nossa vontade, nos planejando a longo prazo. Aí entram o autocontrole e a noção de sacrifício comentadas anteriormente, que envolvem funções executivas que se desenvolvem na adolescência, como o monitoramento cognitivo e o planejamento. Essa é uma ideia presente em nossa cultura até mesmo nas histórias que contamos às crianças e vêm com uma moral, como na fábula da cigarra e da formiga. A formiga não junta alimento para ser melhor que a cigarra, mas porque ela sabe que a comida será necessária no futuro. Se o inverno não chegasse e fosse verão para sempre, talvez ela ficasse ressentida da cigarra. Nós humanos muitas vezes somos ruins no pensamento de longo prazo - gostamos de feedback imediato para avaliarmos nossas ações, procuramos obter prazer no momento presente e associamos causa e efeito mais facilmente a eventos que acontecem a uma curta duração um do outra - relações de causa e efeito que não são tão claras acabam dando lugar a superstições, como pesquisas mostram. No entanto, nossa ciência - por exemplo, a epidemiologia - possui métodos capazes de enxergar a longo prazo, ainda que nós não sejamos tão bons nisso.

Também podemos enxergar o debate entre seguidores e não seguidores da quarentena sob o prisma do egoísmo e do altruísmo - e novamente isso envolve a noção de maturidade. Ou ainda podemos dizer que as pessoas que não seguem a quarentena não vêem essa questão nem como pertencendo à moral e nem à sobrevivência da espécie, mas sim como um ponto em que é possível ganhar ou perder a discussão, o que é manipulado para fins políticos. Confundimos uma disputa de opinião ou uma busca pela verdade com um ataque pessoal à nossa identidade e ao nosso grupo e deixamos de lado os parâmetros que deveriam ser estabelecidos de comum acordo para nos guiar. Assim tudo vira uma competição.

Quando pensamos em larga escala, o ressentimento é uma emoção perigosa. Pode ser usado para justificar qualquer coisa e o sentimento de injustiça facilmente dá lugar ao de vingança, podendo saltar da vingança para o ódio.

Não se deve pensar que as pessoas que furaram a quarentena devam ser odiadas por isso ou menosprezadas por não agirem de modo adequado à moral e à realidade, pois pensar assim ainda é ceder à lógica do ressentimento e não à da maturidade. Se o problema dessas pessoas é a falta de ajuste aos riscos reais que correm e aos quais expõem o resto de nós, se elas não conseguem enxergar as consequências de suas ações de forma correta, provavelmente acham que estão justificadas em sua visão de mundo e podem elas mesmas estarem ressentidas por se verem pressionadas a ficar em casa por algo em que não acreditam. Ceder à lógica do ressentimento odiando-as causaria mais ressentimento nelas, que agiriam de modo a tentar ganhar a questão, causando mais ressentimento em quem ficou em casa e esse ciclo continuaria se retroalimentando sem que dele saísse algo proveitoso.

Ninguém está livre de encontrar-se momentaneamente cegado pelas emoções, e justamente é por isso que precisamos treinar a maturidade em nossos julgamentos e ações - é algo que não vem sozinho, precisa ser praticado e internalizado. Podemos, assim, nos tornar mais tolerantes em relação aos erros dos outros e aos provocados pela nossa própria imaturidade, no sentido de reconhecê-los e não deixar que nos impeçam de ver a figura toda, sem entretanto aceitá-los. Sem essa maturidade nossas ações não serão produtivas; se nosso objetivo é mudar a opinião e o modo de agir dos outros. Com ela podemos começar a pensar numa saída. Não existe um caminho fácil ou garantido de lidar com as pessoas que pensam que a pandemia não é um risco sério, mas não é nos desajustando às demandas da realidade que vamos ajustar os outros.

Vinícius Pereira Mancebo Gomez é psicólogo formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e atualmente faz especialização em Psicologia Clínica Hospitalar no Incor, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

CRP 06 / 158697

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