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#PLURAL 03 - “A comissão de humanização me encontrou e eu me encontrei” Carmelina Amadei


Carmelina Amadei começou como nutricionista, cuidando da alimentação das pacientes do Hospital Pérola Byington e, como ela mesmo define, hoje alimenta pacientes com outro tipo de alimento. Há três décadas atuando na unidade de referência em saúde da mulher - completadas em janeiro deste ano -, vivenciou diversas experiências em sua área e no setor administrativo, mas foi na humanização que se encontrou - e foi encontrada, como revela, com essas coincidências que a vida traz e que a colocou na missão de ajudar tantas mulheres que vivem alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas.


Quem a vê andando pelo hospital, abraçando e sendo abraçada por tantas pacientes, não tem dúvidas de que está diante de alguém que vive plenamente sua vocação. Da menina que adorava ajudar os estudantes na escola da chácara do colégio onde estudava à adolescente que fazia parte do grupo de jovens para olhar pelo próximo, ela segue a inspiração que lhe move desde pequena.


Quem a conhece e a vê atuando, seja no hospital, no desfile, em uma ação em que observa o sorriso das pacientes, sentindo-se realizada, sabe que todas as emoções são verdadeiras e reais - como as que ela faz questão de proporcionar.


Da mesma forma que as voluntárias que ela coordena fazem tudo por amor, assim é sua dedicação - e a coordenação do grupo de humanização é também o seu trabalho voluntário, sua doação que leva a abdicar de aspectos da vida pessoal para estar com as pacientes.

Uma vocação descoberta na primeira vez em que se viu atuando em um hospital e a fez ter certeza de que era exatamente o que queria - e é assim que dedica sua vida.


A coordenadora do grupo de voluntariado e membro do grupo técnico de Humanização do Pérola Byington acha engraçado quando as pessoas comentam e perguntam se ela não se incomoda com o ‘cheiro de hospital, de medicamento’. Ela não consegue entender, não sente esse odor que descrevem, porque, como diz, “o hospital é tão parte da casa da gente”.

Quem vê Carmelina no hospital com as pacientes tem essa certeza: de que ela está em casa rodeada de amigas queridas.

“Eu me formei em Nutrição em 1989 e quando comecei a fazer os estágios já fui direcionando para a área que mais gostava - foi nos hospitais que me encontrei, onde descobri o que eu queria fazer, que era trabalhar diretamente com o paciente e ver sua recuperação. Na época, meu irmão fazia estágio de engenharia no Hospital Pérola Byington, que passava por uma reforma, e um diretor de infraestrutura perguntou a ele se conhecia alguma nutricionista, porque o hospital estava contratando. Ele respondeu que eu tinha acabado de me formar. Para mim foi uma coincidência, uma coisa muito mágica.


Fui conversar com a chefe de Nutrição, que me avisou que o serviço estava sendo estruturado e me contratou. Era o dia 9 de janeiro de 1990. Fiquei com a parte clínica, que gostava muito de fazer, começamos a montar os protocolos, manuais e a estruturar o serviço.


Passados uns quatro anos a minha antiga chefe foi para outra unidade e eu assumi a diretoria - para isso fiz um curso de especialização em Administração Hospitalar e me encantei com essa área. Cuidava não mais apenas da parte clínica, mas também administrativa, gerenciando todo o serviço.


No início dos anos 2000, com a Política Nacional de Humanização, foi criado um grupo sobre o tema, e eu convidada a participar. Comecei então a trabalhar com voluntariado, como membro desse grupo, no início de forma mais tímida. Depois fui convidada e assumi como presidente da comissão, que após um tempo virou um grupo técnico, fortalecido, sem presidente, onde apesar de cada participante ter suas funções, conversamos com igualdade para chegar às decisões, com todos tendo o paciente como foco. A partir daí eu passei a atuar mais ativamente com voluntariado. Começamos a fazer ações com pacientes, desfile, aulas de dança, maquiagem; diversas atividades começaram a tomar corpo e a se fortalecer.


Sempre falo que eu não fui atrás do voluntariado, da comissão de humanização: a comissão de humanização me encontrou e eu me encontrei, porque eu amo o que faço hoje, essa parte da humanização. Faço também a administração do serviço de nutrição do hospital, mas o que mais me fortalece, o que me torna uma pessoa melhor é a parte do voluntariado, lidar com as pacientes dia a dia, poder proporcionar situações em que elas tenham melhoria de autoestima, ajudar que esqueçam um pouco o tratamento que estão fazendo que levará à perda de cabelo, a lidar com quebras na feminilidade. Possibilitar que elas esqueçam, nem que seja por um momento, desse tratamento doloroso, faz tudo valer a pena.


Nosso trabalho voluntário começou tímido, não tinha contrato formalizado e foi crescendo: chegaram pessoas para ensinar a fazer crochê, veio o Instituto Abihpec com aulas de maquiagem, surgiu a oportunidade do desfile. Muitas coisas foram acontecendo por acaso. No caso do desfile, por exemplo, realizávamos em um formato menor. Um dia eu estava no carro para buscar as crianças na escola e ouvi no rádio entrevista de uma aluna da Universidade Anhembi Morumbi comentando um projeto deles de roupas sustentáveis; achei interessante, resolvi telefonar e falei com a coordenadora do curso, que me chamou para conversar. Ela quis conhecer as pacientes e passamos a realizar o desfile com eles - já fizemos 15 desfiles, sendo 10 com a universidade. Foi um acaso e um presente.


Sempre que aparece uma proposta de um novo projeto, nossa principal preocupação é perceber se a pessoa faz aquilo por amor ou por satisfação pessoal, por ego. Com anos de experiência notamos quando a pessoa fala de coração ou da boca para fora. No Pérola temos esse princípio de fazer com amor, porque senão, não flui.


Todos os nossos voluntários se dedicam de coração, são pessoas que abdicam de um dia da semana para ir ao hospital, de graça - nenhum de nós ganha nada para fazer essa parte do voluntariado. Sou contratada pelo hospital na minha área; a humanização é um plus que fazemos. Nenhuma voluntária tem retorno financeiro, inclusive muitas gastam com condução, dedicam-se totalmente. A professora de dança do ventre, por exemplo, conseguiu doação de roupas para as pacientes se apresentarem em um espetáculo. Vemos que as pessoas se mobilizam espontaneamente e de coração aberto.


Nos dá orgulho constatar a credibilidade do nosso trabalho. Há uns meses a equipe de Psicologia nos trouxe a preocupação com as pacientes internadas com covid-19, que estavam isoladas, e os psicólogos tiveram a ideia de termos um tablet ou celular para que conversassem com a família, uma visita virtual. Fizemos contato com parceiros e quando eu liguei para um deles que faz o dia da beleza para nossas pacientes, ele postou no seu grupo e naquela mesma noite uma pessoa que trabalha com ele me ligou avisando que um amigo dela iria doar um tablet. No mesmo dia ele comprou e nos mandou um tablet novo. Essas ações nos dão a satisfação de comprovar que nosso trabalho tem credibilidade e isso não tem preço. As meninas da dança do ventre foram se apresentar em um congresso de qualidade de vida da Secretaria de Saúde e o Secretário da Saúde (à época) ficou encantado vendo o trabalho que fazemos. É extremamente gratificante.


Assumir a humanização foi um grande desafio, mas me proporciona todas essas alegrias. Lembro quando o diretor me chamou para dizer que eu seria responsável por essa área - eu disse a ele que não iria dar conta, ao que ele respondeu: ‘se você não fosse dar conta, eu não ia colocar você para fazer isso’. Foi desafiador cuidar de uma área totalmente diferente, porque eu nunca havia tido contato com voluntariado, minha formação é outra. Como nutricionista eu cuido das pessoas, mas de uma maneira diferente: vemos a alimentação, fazemos visitas e de repente eu teria que cuidar desse mesmo paciente de uma maneira integrativa, pensando não apenas o que ele precisa comer para melhorar. Eu passaria a alimentar esse paciente com outro tipo de alimento.


Foi o maior desafio que eu vivi, assumir e conseguir fazer com que desse certo e se fortalecesse nesses 15 anos. Ainda me sinto desafiada a cada projeto novo, cada nova ação que vamos implantar; proporcionar o melhor para elas é sempre o nosso desafio.

E com essa experiência, se alguém me pergunta hoje o que faz meu coração acelerar, a nutrição ou a humanização, com certeza respondo a humanização. Além de eu gostar de cuidar da parte administrativa, porque possibilita ter a visão do todo do hospital, com o voluntariado administramos pessoas e realizamos projetos. E quando o “bichinho” da humanização nos pica é para sempre.


Há momentos difíceis também, como quando idealizamos algum projeto, apostamos nele e por alguma adversidade não conseguimos finalizar ou ele segue outro caminho que não traz o resultado esperado; isso decepciona um pouco. Às vezes nem todos estão alinhados no mesmo propósito, esbarramos em barreiras burocráticas ou na dificuldade de encontrar formas para viabilizar.


Nós lidamos com um tema difícil que é o câncer e há pacientes que nos marcam. Teve uma paciente que conheci logo no começo, eu ainda trabalhava como nutricionista, a dona Olga, que estava sempre no hospital. Eu ia visitá-la no quarto, conversar - perdi meu pai na época e ela me dava muita força; um dia eu estava na beira da cama dela , quando ela falou: ‘se você visse essa luz que tem ao seu redor, você está aqui para ajudar as pessoas’. Na hora eu não entendi bem e hoje isso se encaixa com o que faço no voluntariado.

Nessa relação com as pacientes, há algumas com quem nos apegamos mais, que são mais próximas. Entendo que cada uma tem o seu momento e poderá ter um momento em que a doença seguirá seu curso. Nós sentimos, damos o conforto para a família, visitamos as pacientes que estão em tratamento paliativo, tentamos lidar com naturalidade, mas obviamente abala. Procuro não desmoronar para a paciente sentir força. Tem horas que queremos chorar com elas, mas seguramos, respiramos. E às vezes temos que abraçar e chorar também.


Quando promovemos o desfile, por exemplo, têm pacientes que estão na fase paliativa e outras curadas, comemorando. Precisamos saber dosar: uma hora vibramos de felicidade, outra uma tristeza imensa, mas sem deixar cair a peteca. Devemos entender que cada uma tem seu momento, lutou todas as guerras e infelizmente perdeu a batalha e precisa descansar.


Importante é, em todas as fases, poder ver o sorriso delas, saber que fazemos parte daquele momento e ajudar a proporcionar o que precisam. Isso é o que me realiza.


Quando agradecem, digo a elas que não têm o que agradecer; eu que tenho que agradecer porque me torno uma pessoa melhor a cada dia. Cada vez que uma paciente entra na minha sala e diz: ‘só vim te dar um oi, ver como você está’, esse carinho que recebemos não tem preço. É algo que me fortalece demais.


Tenho muito orgulho de fazer parte desse grande Hospital e do grupo técnico de humanização, e desenvolver esse trabalho junto às pacientes; é um presente e uma honra.

Eu me sinto um ser humano melhor com cada sorriso, cada abraço, cada olhar em que sinto que o coraçãozinho delas está um pouquinho mais feliz. Saber que pegamos na mão delas e ajudamos a seguir”.


Mensalmente o Instituto Contemplo traz uma história inspiradora, motivadora, uma história especial. Uma história de uma mulher que conseguiu transformar o grande desafio de sua vida em um exemplo de superação. Uma mulher única, ao mesmo tempo em que é plural. Como somos todas nós.


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Colaboração: Lapidando Palavras e Alfazemas Comunicações.

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