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A felicidade tem receita?

Coluna Farol - quinta-feira, 05 de março de 2020


Seria a felicidade apenas a ausência de tristeza? Ou ela depende de que situações positivas aconteçam em nossa vidas? Ou é um estado de espírito que independe das situações? Talvez seja uma disposição na forma de encarar a vida e o dia a dia? Ela é uma escolha? “Feliz” é algo que as pessoas podem apenas estar ou apenas ser - ou ambos? E, se for ambos, a partir de que ponto uma pessoa deixa apenas de estar feliz com frequência e passa a ser feliz - ou são dois tipos diferentes de felicidade?


O ideal da felicidade se encontra bastante presente nas nossas vidas e tem um grande impacto nelas, mas se cada pessoa explicar sua definição de felicidade veremos que estamos falando de coisas bem diferentes. E, por ser assim uma noção tão familiar nossa, talvez seja interessante nos desfamiliarizarmos um pouco com ela, para percebermos o quanto não éramos familiarizados desde o princípio.


Quando falamos sobre ideias que não são concretas, é difícil conseguir nos expressarmos com exatidão - e, se nós nem sabemos definir, como medir? Geralmente avaliamos o nível de felicidade pelo estado externo da pessoa, pelo autorrelato dela ou, no caso de estarmos falando sobre nós mesmos, pela sensação que experimentamos. Porém, por ser uma experiência subjetiva, é difícil medir a felicidade de forma precisa.


Se já é complicado definir e medir a felicidade, e quanto às outras emoções e sensações positivas como o divertimento, a distração, a euforia, o êxtase, o contentamento, o conforto? Eles também são aspectos da felicidade, são emoções completamente diferentes ou possuem elementos de felicidade, mas também de outras emoções? Talvez seja mais fácil entender as emoções vistas como negativas, porque elas geralmente são uma reação a uma situação que não vai bem e sugerem uma ação para lidar com elas - a raiva pode fazer querer bater em alguém, o medo faz querer sair de uma situação, o nojo faz querer evitar algo. Mas e a felicidade?


O fato de que seja possível fazer tantas perguntas que podemos considerar importantes sobre a felicidade, mas são difíceis de responder ou chegar a um consenso, mostra que falar sobre felicidade pode gerar confusão e, por conta disso, talvez seja útil olhar como outras culturas enxergam a felicidade e como ela foi entendida ao longo da História.


Tentando encontrar semelhanças entre as emoções de diferentes culturas, o psicólogo Paul Ekman realizou várias pesquisas, inclusive com pessoas de uma cultura que teve pouco contato com a civilização ocidental e, portanto, não poderia ter aprendido com representações na mídia o modo como expressamos emoções. Os resultados de sua pesquisa indicam que algumas emoções (e em alguma medida também o modo como são expressas), entre elas a raiva, o espanto, o medo, o nojo e, claro, a felicidade, são universais a todas as culturas. Mas o fato de que apareçam expressões de felicidade em todas as culturas não significa dizer que essas expressões sejam absolutamente iguais ou que as emoções são entendidas na mesma forma em todas as culturas estudadas. As emoções possuem aspectos semelhantes entre culturas e outros que variam; além disso, dentro de cada cultura, esses aspectos podem ser influenciados por fatores sociodemográficos. Dá para dizer que o modo como sentimos, expressamos, descrevemos e interpretamos nossas emoções é mediado pela nossa cultura e, de certa forma, nós sofremos uma “educação sentimental” pelos adultos e pela mídia conforme nos desenvolvemos e aprendemos a saber o que sentimos e a expressar nossas emoções por imitação.


Quanto ao conceito de felicidade ao longo da História, muitas perguntas foram levantadas: a felicidade é importante? Ela vem até nós ou é preciso buscá-la? É possível buscá-la? Deve-se buscá-la? O que seria buscar a felicidade e como sabemos que a estamos buscando? Ela só ocorre como subproduto de outra coisa? Como se sabe que se alcançou a felicidade? Pensar muito sobre a felicidade ou identificá-la em nós mesmos acaba com ela?


Na Antiguidade, muitos filósofos gregos acreditavam que a felicidade era um objetivo a ser alcançado, e para chegar até ele era preciso levar uma vida virtuosa: a felicidade era considerada produto de uma vida vivida obedecendo-se certos ideais, valores morais e atitudes corretas, e estava ligada a valores que hoje chamamos de autorrealização, potencialidades e propósito. Essa visão é chamada de eudemonista e contrasta com a visão hedonista no sentido de que enquanto a segunda busca o prazer imediato, a primeira busca escolher que desejos satisfazer e quando. No período do Império Romano, a felicidade era vista como prosperidade e atrelada às divindades. Já com o advento do Cristianismo, passou a estar associada novamente com virtudes, mas também com o Paraíso. Após o Iluminismo e a Revolução Francesa, começou-se a falar no direito à felicidade como sendo um dos objetivos da sociedade para com seus cidadãos.


Hoje, existem vários produtos no mercado para quem procura a felicidade, seja por um caminho mais eudemonista, como quem lê livros de autoajuda, seja por um caminho mais hedonista, como quem busca o prazer proporcionado por substâncias que produzem alterações químicas no cérebro.


O estudo da felicidade é relativamente recente na literatura psicológica: embora emoções positivas venham sendo estudadas desde as raízes da Psicologia no século 19, a criação de um campo da Psicologia dedicado a elas só surgiu nos anos 1990 na forma da Psicologia Positiva.


Os psicólogos dessa vertente apontam que a Psicologia se importou mais com os modos de lidar com os problemas que as pessoas enfrentam do que com as formas de fazer as pessoas ficarem bem em primeiro lugar.


Uma corrente da Psicologia mais voltada à felicidade hedônica definiu, nos anos 1970, o conceito de bem-estar subjetivo, que engloba aspectos de satisfação com a vida e maior frequência de emoções positivas. Pesquisas indicam que variáveis como a personalidade, o modo como as pessoas lidam com situações de estresse e a persecução de objetivos apresentam correlação apenas moderada com o bem-estar subjetivo. Dentro dessa corrente, existem pesquisadores que acreditam que o bem-estar subjetivo se deve mais a fatores externos (a situação de várias áreas da vida da pessoa) e outros que acreditam ser o produto de fatores internos (e que as pessoas teriam uma predisposição a interpretar as situações de modo mais negativo ou positivo).


Outra corrente, que começou nos anos 1980, voltou-se para a noção eudaimônica de felicidade e definiu o conceito de bem-estar psicológico, que envolve a superação de desafios e está relacionada a autonomia, propósito, crescimento pessoal e significado.


Uma pesquisa realizada em 2011 por Delle Fave e outros pesquisadores com adultos de vários países levou em conta a concepção hedônica e eudaimônica de felicidade. Essa pesquisa concluiu que, entre os itens avaliados, a categoria relações familiares e sociais foi a mais relacionada à felicidade, e que embora estejam correlacionados positivamente, felicidade, significado e satisfação com a vida são conceitos independentes entre si.


E como são as pessoas felizes? O estudo da felicidade indica que alguns traços de personalidade estão ligados a maiores níveis de felicidade, como extroversão, afabilidade e autoestima.


Lembrando: embora haja uma correlação entre felicidade e esses traços de personalidade, correlação não implica causação, isto é, não é possível saber se é o traço que causa felicidade ou vice-versa, ou ainda se são outros fatores que causam ou que estão relacionados com os dois; tudo o que se pode dizer é que a felicidade e esses traços tendem a aparecer juntos mais do que seria esperado na população.


As pesquisas também apontam a influência do cultivo de características relacionadas ao caráter, como autodirecionamento, autotranscendência (tornar-se mais autoconsciente das crenças que levam a interpretações negativas das situações) e cooperatividade, em ter mais emoções positivas e menos negativas. Além disso, em relação ao otimismo, que é um dos modos como as pessoas interpretam a realidade, descobriu-se que pessoas que atribuem eventos negativos a fatores externos (como não sendo culpa delas), instáveis (como sendo algo que não vai acontecer na próxima vez) e específicos (como sendo algo que só ocorreu em circunstâncias específicas) tendem a possuir melhor humor e motivação.


Outros fatores importantes para a felicidade são a resiliência, o suporte social, o ambiente, os sentimentos de competência, pertencimento e autonomia, e as condições econômicas, embora após um certo ponto (isto é, garantidas comida, água e condições de higiene) a felicidade não se correlaciona com aumento de poder aquisitivo. Não foram encontradas diferenças em níveis de felicidade por pessoas que relataram maior frequência de eventos positivos (ou seja, a relação entre eventos externos e bem-estar gerado era pequena). Um estudo também identificou que nenhuma das variáveis estudadas pelos pesquisadores individualmente era suficiente para que os participantes fossem felizes, mas boas relações sociais eram necessárias.


Sobre a diferença entre uma felicidade mais “excitada” e uma mais “serena”, é importante notar que pessoas mais felizes relatam sentir sentimentos positivos moderados a maior parte do tempo, mas não tanto de euforia, e sentiam também menos humores negativos. Pessoas mais felizes também conseguem se lembrar de mais eventos positivos, relatam sentir mais emoções positivas do que outras pessoas, e passam mais tempo socializando e menos sozinhas.


Quanto à questão de eventos positivos ou negativos fora do comum afetarem ou não os níveis de felicidade, um fenômeno interessante observado é o de adaptação hedônica: após um evento muito positivo ou negativo, ou que mude a vida da pessoa, os níveis de expectativa e de desejo se ajustam, e as pessoas voltam para níveis estáveis de felicidade. Por exemplo: em um primeiro momento, ganhar na loteria pode trazer grande satisfação, mas após o momento inicial, o indivíduo terá ambições maiores, condizentes com sua nova situação, e voltará aos níveis normais (relativamente) de satisfação e frustração.


Na presença de todos esses dados, ainda resta a pergunta: como ser feliz? A resposta é que não existe uma fórmula mágica, mas as pesquisas e a Filosofia podem apontar uma direção a ser seguida: estabelecer e manter boas relações sociais com as pessoas, exercer e trabalhar em características do caráter, fomentar uma visão otimista, levar uma vida de virtudes, satisfazer os desejos e buscar o prazer ou escolher que prazeres satisfazer e quais não satisfazer visando uma felicidade maior, tomando cuidado para não adiar a felicidade para sempre. Todos esses são caminhos válidos em direção à felicidade. E, claro, além de buscar emoções positivas, também podemos diminuir as negativas, começando pelo nosso próprio corpo, que tanto influencia nas emoções: dormir bem, fazer atividade física e ter uma boa alimentação são atitudes que evitam estados negativos.


Fontes:

Ferraz, Renata Barboza, Tavares, Hermano, & Zilberman, Monica L.. (2007). Felicidade: uma revisão. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 34(5), 234-242. https://doi.org/10.1590/S0101-60832007000500005

Freire, Teresa, Zenhas, Filipa, Tavares, Dionísia, & Iglésias, Catarina. (2013). Felicidade Hedónica e Eudaimónica: Um estudo com adolescentes portugueses. Análise Psicológica, 31(4), 329-342. Recuperado em 25 de feveiro de 2020, de http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0870-82312013000400002&lng=pt&tlng=pt.

Camalionte, Letícia George, & Boccalandro, Marina Pereira Rojas. (2017). Felicidade e bem-estar na visão da psicologia positiva. Boletim - Academia Paulista de Psicologia, 37(93), 206-227. Recuperado em 25 de feveiro de 2020, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-711X2017000200004&lng=pt&tlng=pt.


Vinícius Pereira Mancebo Gomez é psicólogo formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Nas horas vagas gosta de ler, programar e tocar violão.


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